Giorgio (Diôdio) Dal (Do) Molin (Moinho) nasceu no dia 15/08/1985 em Curitiba e é estudante de jornalismo. Leonino, ele despreza hipócritas e ama seu país: "Meu maior orgulho é o de ser brasileiro", afirma.
DOMINGÃO DA ATUALIZAÇÃO Depois de séculos vou vomitar um texto dominical encima de você! Leia no gás, senão não vale!!!
A construção de um universo paralelo
Quase seis horas da tarde na cidade. Donas de casa assistem a um programa feminino de culinária e fofocas na TV Gazeta, crianças e jovens sem o que fazer assistem ao ¿Chaves¿ no SBT, idosos esperam sua vez na fila da televisão e trabalhadores estão a caminho de casa loucos para assistir às novelas e ao Jornal Nacional.
Mas, opa, que barulho é esse? Parece que um carro bateu atrás de sua casa, era seu vizinho. Mas e daí?! Isso não importa. Agora você está vendo a novela. Suas emoções estão concentradas na telinha. Seus olhos estão cheios da lágrima: ¿Será que a Tibúrcia vai sair dessa. Ó vida cruel a dela!¿
Ainda durante a novelinha, alguém toca sua campainha. Era o filho do vizinho querendo te dar a notícia da morte do pai. Sem nenhuma lágrima nos olhos você coloca a mão no ombro do pequeno e diz ¿minhas condolências, se precisar de algo, procure o seguro de vida do seu papai, eles saberão o que fazer¿.
Você percebe o que acontece? Seus sentimentos pela novela são absolutamente reais, enquanto que, o ocorrido com seu vizinho (aquele mesmo com quem você fez um churrasco semana passada) são fictícios. Cara, você não existe!
Sua vida é um verdadeiro universo paralelo. Incrível como uma caixa estúpida possa ter mais do que a mera função de diversão. Ela informa, diverte, rompe barreiras, deixa os filhos quietos, educa-os e diz o que fazer em caso de incêndio. Antes fosse só isso. Ela não apenas educa seus filhos, ela educa você. As propagandas passam e você compra, o jornal passa e você diz amém.
Agora vamos por partes. Existem alguns meios de você interpretar o que está acontecendo. Primeiro: você prefere ver tudo como estão querendo que você veja; ou seja, um paraíso. Segundo: você pode achar tudo uma porcaria e achar o mundo uma fábrica de perversidades. Terceiro: você é sonhador e acredita que um dia tudo vai mudar só que não sabe como.
Mas quem? Quem são os malditos que estão querendo deixar tudo como está? Ou melhor, o que diabos está errado?
Tanto televisões, como jornais impressos, a internet e as rádios possuem um indivíduo chamado jornalista. Grande parte deles, não todos, são seres arrogantes, que pensam estar acima de outras pessoas por verem de tudo um pouco. Por eles, você descobre que uma bomba explodiu no Japão quase ao mesmo tempo daquela pessoa que sofreu os danos de tal bomba.
Mas o jornalista também adora fazer umas brincadeiras. Bancando o super herói, ele adora mostrar para você o assassinato na sua rua, o perigo dos bêbados que andam de carro, julgar quem é o bonzinho da briga, entre outros. Traduzindo, adoram colocar medo em você. Portanto, cuidado ao sair de casa.
Ainda nestes mesmos lugares, aparece o serviço de um outro ser, também esquisito e um tanto quanto descolado, chamado publicitário. Contratado pelas empresas, ele transformam um produto chulo em uma verdadeira obra de arte, que parece indispensável no seu dia-a-dia.
Mas, e agora? Será que você tem coragem de se aventurar nas perigosíssimas ruas da cidade para comprar seu objeto de desejo? Parece que sim, pois você é um ser muito corajoso. Se for pobre, não terá dinheiro, mas ainda assim pode virar ladrão e roubar o objeto do rico. Se você for rico ou classe média, vai usar toda sua malandragem e esperteza que seus cheques sem fundo lhe deram e não vai parar em nenhum sinal vermelho para chegar mais rápido a loja. Imagine só se você vai dar chance para aquele fracassado maldito te roubar ou aquele seu maldito colega comprar uma jaqueta da Nike antes que você.
Mas alguma coisa está ficando para trás nesta história toda. Como você mesmo mostrou no ocorrido com o seu vizinho, seus sentimentos são artificiais. Então para que dar esmola? Aquele piazinho pedinte ainda vai virar um baita de um maloqueiro no futuro e vai vender maconha para seu filho.
Já imaginou que divertido?! Seu querido filho terá a chance de virar amigo da maloquerada da cidade. Talvez a amizade dele com pessoas de outras classes sociais, tanto os amigos mais ricos como os mais pobres, dêem a possibilidade de os seres humanos se relacionarem e conversarem entre si quase em pé de igualdade. Mas você nunca ia deixar um filho ser amigo de um maloca. Talvez até pagasse outro maloca para dar um jeito naquele traficantezinho maldito.
Mas ainda existem outras opções. Pela internet, seu filho fala com todos amigos por um programa chamado ¿messenger¿. Conhece gente de todo o mundo. Que orgulho, né?! Seu filho tem um amigo em cada canto do planeta. Mas, e o vizinho órfão? Seu filho é amigo dele? Acho que não. Ele está tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe...
Agora, que tal botar a culpa no governo? É tudo culpa desse maldito a existência de vagabundos na cidade. Você nunca tem culpa de nada. Você é inocente e sairá desta vida direto para o paraíso. Paraíso? Eu tinha me esquecido, desculpe. Esqueci que Deus não existe mais para você. Alguns dizem que ele está morto ou simplesmente não vai mais aparecer por aqui. Também. Com um mundo violento desses até o Diabo tem medo de sair do inferno.
Veja só até que ponto você chegou. Antes existiam quatro mundos na vida humana: o dos mortais, o purgatório, o céu e o inferno. Agora você praticou uma política de terra arrasada e resumiu seu mundo a um só. Ou melhor, a dois. O mundo dos mortais e o seu mundinho paralelo particular. Este sim é o verdadeiro paraíso! Talvez não precise nem trabalhar quando for ao seu trabalho. Isto é obvio, algum camarada com afeto artificial fará o seu trabalho por você.
Quem sabe você até saia mais cedo do emprego e atravesse todas as ruas alegre e saltitante (mas atenção redobrada, é claro) e chegue em casa na hora do Chaves e de boas risadas imaturas com seu filho no sofá.
Por falar em ruas. Por acaso, você sabe quais são os nomes das ruas em volta da sua casa? Cuidado! Seu vizinho não sabia e deu no que deu. Mas você nem liga para isso não é mesmo?! Até a geladeira é mais quente que você.
Bom, chega de encher sua paciência. Espero que você não tenha acreditado em tudo que lhe foi dito aqui. Isto mostraria senso crítico. Um abraço, melhor ir que está na hora da Sessão Coruja.